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4 de fevereiro de 2014

Felizes Mortes by Camy Caroline

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Felizes Mortes

Randi sempre sonhara com um casamento histórico, cheio de arte, riquezas e extravagancias, um casamento a moda antiga. Era inglesa de nascença, porém o sangue de seus antepassados hindus sempre falara mais alto e ele a trouxera até este lugar, neste dia e nesta hora.

A garota olhou-se no espelho mais uma vez, admirando o trabalho que as mulheres de sua família fizeram em seu corpo. Milhares de tatuagens de hennavermelha cobriam suas pernas e braços, arabescos com flores e gavinhas que pareciam subir por seu corpo, dando-lhe um aspecto ancestral. Os olhos decorados com sombras em tons de dourado e kajal, evidenciando os olhos de uma forma que inimaginável. Os lábios levemente cor de cereja estavam em harmonia com os rubis e o sari¹ vermelho que lhe cobria o corpo, seu maravilhoso vestido de casamento.

Mais do que feliz com seu casamento, a garota mal percebeu que estava sendo observada. Ficou ali um bom tempo, apenas se admirando, até que sua mãe a chamou para os preparativos finais. Estava quase na hora! Em breve, seria uma mulher casada, daria orgulho a sua família.

O rapaz que a observava suspirou quando a noiva saiu de seu campo de visão. Uma mulher maravilhosa, que o fazia feliz sem pronunciar uma única palavra, mas que nunca seria sua. Seria dele. E ele sequer a amava! Só estava se casando, pois os pais o obrigaram, não lhe deram opção: ou casava, ou seria deserdado. Optou pelo casamento.
Annik achou que seria o castigo perfeito para o irmão mais velho, mas a verdade era que ao castigo fora destinado a ele. Desde o momento em que conheceu a noiva do irmão, encantou-se com sua beleza e doçura. Mulher de riso fácil, olhos brilhantes, muitos talentos e amorosa para com todos.

Como o noivo não podia conhecer a noiva até a hora da cerimônia, foi o intermediário do casamento, escolheu a noiva, acertou o dote e todo resto. Conheceu a noiva e a família a fundo. Apaixonou-se pela garota. Quando percebeu seus sentimentos mudando, só pode chegar a conclusão de que fora amaldiçoado pelos deuses. Era sua sina. Ele era e sempre seria apaixonado por aquela que era de seu irmão.
Precisava mudar isso. E faria o que fosse preciso para acabar com sua maldição.

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Soham achava que deveria se sentir feliz, afinal, se casaria em poucas horas. E em poucas horas, teria uma noiva que lhe encheria a cama e faria tudo o que desejasse. Tentou se alegrar, mas não conseguiu nem sorrir minimamente. Homem livre como sempre fora, sonhava em viajar o mundo, ter as mulheres que desejava e todo o dinheiro que pudesse conseguir, não com um casamento arranjado, como mandava a tradição de seu povo.

Tudo aconteceu quando seus pais descobriram que engravidara uma ocidental em uma de suas viagens e a obrigara a abortar. Fez aquilo porque não queria responsabilidades, mas aos olhos de seus tradicionais pais, aquilo fora a gota d’água, um desrespeito irreversível contra a vida e, como castigo, ele deveria se casar, a coisa que menos queria fazer na vida.

Porém estava ali, prestes a sair de casa montado em seu cavalo branco com seu kurta² vermelho e uma espada de ouro presa ao quadril, enquanto rumava ao matador de seus sonhos, seu casamento. Não querendo ficar sóbrio durante o acontecido, pegou o pacotinho transparente que continha um estranho pozinho branco, que havia adquirido na Europa durante uma viagem. Seus amigos diziam que era bom, que o faria ficar feliz e fora de si.
Espalhou grande parte do conteúdo do pacote sobre a mesa, pegou um tubo de caneta e inspirou profundamente, deixando que uma estranha ardência tomasse conta de seu corpo. Poucos segundos depois, sentia-se livre e forte. Podia enfrentar qualquer coisa, até mesmo um casamento indesejado.

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-Seu noivo é um rapaz muito bonito. –disse sua mãe, acariciando-lhe os cabelos negros. –Fará um bom casamento.

Ficara tão encantada com a ideia de se casar, que quase se esquecera de que não estava casando com o amado, mas sim com o irmão mais velho.

Apesar de amar sua religião e costumes, Randi odiava o fato de os pais terem de escolher seu noivo. Amava o irmão mais novo da família Chidambar. Era Annik, aquele que arranjara seu casamento para o irmão, fechara negócios com seus pais sobre seu dote, que a levara para rezar em alguns templos, preenchendo seus ouvidos com voz doce e melódica ao relatar histórias de sua família. Lembrava-se muito bem do dia em que ele a levara para um templo da deusa Durga e se declarara, foi um momento mágico...

“Tentou fazer de tudo para que os pais mudassem seu noivo, mas eles foram inflexíveis, dizendo que se ela fora prometida para o mais velho, com o mais velho se casaria.
Arrasada com aquelas palavras, ela fugiu de casa e se refugiou no templo da deusa Durga, onde o amado se declarara a ela e ficou ali sentada, esperando que a deusa atendesse suas preces e lhe mandasse algum consolo. E ele veio. Cabisbaixo, olhos no chão e lágrimas escorrendo pelas faces. Era ele, Annik, que por sua vez, ficou espantado quando viu a amada ajoelhada perto do altar da deusa, feições tristes e toda desgrenhada. Nunca a vira tão desarrumada, nem tão linda. Correu e ajoelhou-se a seu lado, sendo levemente acariciado no rosto.

-É realidade ou apenas um sonho de minha mente já enlouquecida? –a garota perguntara.

-Se está sonhando, então estou sonhando a mesma coisa. –respondera também a acariciando na face. –Pela deusa que testemunha isso, Randi, juro fazer de tudo para que possamos ficar juntos!”

Ela ainda esperava, mas suas esperanças minguavam a cada segundo. Seu casamento estava próximo e não havia mais nada a ser feito.

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-Randi é maravilhosa, irmão, deve trata-la muito bem. –Annik tagarelava durante a procissão para o casamento.

-Que seja! –respondeu Soham, não demonstrando o menor interesse em ouvir.

Apesar de saber que aquilo tudo era para leva-lo ao seu mais profundo pesadelo, o noivo ficou feliz que fosse para ele, todas aquelas homenagens, a festa e as animadas músicas que o seguiam por onde passava. Levou a mão ao rosto como se fosse coçar o nariz, algo normal nas ruas cheias de areia daquela cidade, mas a verdade era que queria mais um pouco do maravilhoso ardor que experimentara mais cedo. Inspirou profundamente o pó que estava escondido sob a manga, sentindo as vias respiratórias queimarem como se estivessem em chamas, depois a pele, seguida dos olhos e boca. Seu coração vacilou e por um breve momento teve algo semelhante a um espasmo, depois mais outro e mais outro. De repente, o mundo tremia todo, assim como seu corpo. Uma estranha escuridão foi tomando conta dele, até que caiu do cavalo e o mundo se apagou de vez.

Vários gritos de terror cortaram a multidão que até a pouco cantava e dançava alegre. Annik desceu do cavalo e ajoelhou ao lado do irmão. Verificou o pulso, dilatação das pupilas e os demais sinais vitais, mas o único presente era o calor corporal e sabia que esse sumiria aos poucos. Estava morto.Soham estava morto.

-Pai! –o grito do irmão mais novo cortou a multidão.

O pai do noivo morto, por sua vez, estava estagnado em cima de seu próprio cavalo. Não conseguira desmontar, tampouco conseguiria chegar perto do filho morto.
–Vá até o local de cerimonia e avise sua mãe, avise que não haverá mais casamento. –conseguiu dizer com voz fraca depois do que lhe pareceram eras de silencio.

Sem pensar em muitas coisas, o filho mais novo montou seu cavalo e galopou até o local do casamento, não se dando o trabalho de desmontar ao chegar lá. Apenas foi entrando na tenda onde ficavam as mulheres e foi em direção a sua assustada mãe, que gritava que não era aquela a educação que lhe dera. Ignorando todos os comentários,Annik desceu do cavalo e segurou nas mãos da mãe, arrastando-a até a mãe da noiva e a própria noiva. Contou-lhes o que havia acontecido, fazendo com que a mãe começasse a gritar em desespero.

Os homens da festa, ouvindo a gritaria que se instalara na tenda das mulheres, entraram lá sem se importar minimamente com o costume, pois queriam saber o que acontecera para que suas mulheres ficassem tão histéricas. Vendo o garoto ali no meio da tenda, tomaram para si que ele era o motivo de tanto estardalhaço e o tentaram expulsar dali, mas ele foi resistente e contou tudo novamente, antes que fosse realmente expulso do local.

-Bem, -disse o pai de Randi, que até agora não esboçara emoção alguma. –foi prometido um dos filhos de Ananda Chidambarpara casar com minha filha. E como o noivo morreu... Que seja você a se casar com ela, rapaz. Honre a promessa que sua família fez para a minha.

Randi, que até o momento se mantivera quieta, correu até o pai e o abraçou brevemente, antes de se voltar para Soham e ajoelhar-se a seu lado. Sorriram um para o outro. Sabiam que era errado ficar feliz em meio a uma tragédia, porém não conseguiram se conter, pois finalmente ficariam juntos.

-Pela deusa Durga! –sussurram um para o outro, sabendo que aquilo só poderia ser castigo e milagre divino.

FIM

1- Vestimenta tradicional feminina indiana. Composta por saia longa, top e lenços.

2- Vestimenta tradicional masculina indiana. Composta por túnica e calças largas.

23 de dezembro de 2013

Do Amor e da Guerra by Camy Caroline

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Corri o mais rápido que minhas pernas permitiam. Por um momento, desejei virar uma partícula de fóton no vácuo, correndo a velocidade da luz, pois assim, ninguém poderia me pegar. Não que eu estivesse fazendo algo de errado, mas em meio a ditadura militar, protestar contra o governo fascista e se deixar ser pego, era quase uma sentença de morte, ainda mais sendo de família de militares. Esses, eles consideravam grandes traidores e a sentença vinha mais do que dura.
Forcei ainda mais minhas pernas, na esperança de deixar para trás o militar que me seguia. Corri em ziguezague, entrei em becos e com o impulso da corrida pulei muros, me enfiei em pequenas passagens que juguei que só uma pessoa com estatura baixa, assim como eu, passaria. Doce ilusão! Aquele militar corpulento e aparentemente sem nenhuma habilidade, corria com rapidez e flexibilidade, às vezes parecia que ele estava a brincar comigo, só para se divertir antes de me pegar e prender.
Entrei em um beco ladeado por lixo, um lugar tão apertado que mal cabia uma pessoa. Um lugar tão extenso e difícil de ser ultrapassado por pessoas grandes, que eu tinha certeza de que atrasaria o homem que me seguia, até chegar ao fim do beco e quase cair num barranco, que acabava rio estreito, que corria para o centro da cidade. Ia pular, mas hesitei. Poderia morrer nesse salto isso poderia ou não ser uma coisa boa. Por um lado, morrer seria ótimo, acabaria de vez com esse sofrimento, essa vida de lutas contra o fascismo de um governo injusto. Por outro, tinha filhos pequenos e marido que precisavam de mim e sofreriam muito se eu me fosse para sempre.
Recuei dois passos, batendo de costas contra uma parede de músculos, que rapidamente uniram meus pulsos e os prendeu com pesadas algemas. Inspirei profundamente, tentando evitar que as lágrimas que encheram meus olhos rolassem. Morreria, com toda a certeza, mas morreria honrosa para com os meus, morreria por uma causa que sempre lutei: a liberdade.
-Não quis pular, senhorita? –o militar riu ao meu ouvido. –Com medo de morrer? O que receberá aqui será muito pior, por isso...
Aquela voz era estranhamente familiar, mas não sabia dizer de onde a conhecia, por estar abafada pela máscara, que eles usavam para se proteger das bombas de gás que jogavam nos protestantes.
-Não tenho medo de morrer. –o interrompi. –O que faço não é errado, tampouco. Luto pela liberdade. Minha, de meus filhos e de meu marido, que é obrigado a fazer coisas horrendas com pessoas que assim como eu, pensam no futuro de nossa humanidade! –e em um gesto totalmente indigno de uma dama, cuspi no chão, representando todo meu nojo.
Ele tencionou todos os músculos e apertou meus braços com mais força, antes de me virar bruscamente de frente para si.
-Raphaele, o que está fazendo aqui? –perguntou, arrancando a máscara com uma das mãos, me encarando com amor e fúria. –Não disse para ficar longe disso?
Sem conseguir expressar reação alguma, encarei seus olhos negros como abismo, deixando-me cair em sua infinidade. Depois, meus olhos passearam por seu rosto, analisando cabelo metodicamente cortado, as linhas duras da mandíbula, as olheiras de cansaço, a testa vincada de preocupação, os lábios apertados em uma linha dura e por fim, a cicatriz que cortava toda sua bochecha esquerda.
Não conseguindo responder, me joguei contra meu marido em um estranho abraço sem os braços. Entendo o que eu queria fazer, Tiago rodeou-me com seus braços, confortando minha alma de uma maneira que só ele conseguia. Ergui meu rosto a procura de seus lábios, um beijo de despedida era meu desejo antes de ser entregue as forças militares, mas tudo o que ele fez foi se afastar alguns passos de mim, guardando algo metálico em um dos grandes bolsos de seu uniforme. Demorei algum tempo para perceber que aquilo eram as algemas que antes me prendiam.
Um silencio constrangedor se instalou entre nós, porém ninguém tentou quebra-lo. Sentindo-me oprimida, fiz menção de voltar ao beco e foi nesse momento que Tiago se colocou em meu caminho.
-Preciso ir. –disse eu, espalmando as mãos contra seus ombros, tentando movê-lo do lugar. –Tenho de lutar por nós, por nossa liberdade.
Ele tirou minhas mãos de seus ombros, pegou meus ombros e encarou-me profundamente.
-Não agora, há muitos militares na rua. Espere um pouco e saia comigo. –enquanto falava, lágrimas corriam por sua face. –Não posso perder você.
Desvencilhei-me dele e comecei a correr pelo beco, tentando voltar às explosões, tiros, gritos e toda a confusão a favor da liberdade de expressão. Mãos agarraram minha cintura e me puxaram para trás, escondendo-me nas sombras do beco.
-Eu vou morrer de qualquer jeito, então que seja por uma boa causa! –gritei exasperada. Senti o gosto salgado de lágrimas em minha boca. Não havia percebido que estava chorando até o momento.
Ele colocou-se a minha frente novamente, impedindo minha passagem. Baixei a cabeça sabendo que aquele era o fim de tudo, que mancharia o nome de
minha família e morreria como uma criminosa qualquer. Fui surpreendida ao sentir o delicado toque de meu marido sob meu queixo, obrigando-me a olhar em seus olhos, só para que ele colocasse meus cabelos atrás de minhas orelhas, antes de começar a acariciar a minha face, antes de beijar-me delicadamente.
-Você não vai morrer por isso, Raphaele, não vou permitir. –disse ele, colando sua testa na minha.
Balancei a cabeça negativamente, ele não podia fazer isso, tinha de contar para seus superiores, era seu trabalho. Por mais cruel que fosse, ele tinha de cumprir com seus deveres, era questão de honra. Não conseguiria conviver comigo mesma sabendo que ele escondia esse segredo, assim como não podia parar de fazer o que fazia, pois tinha certeza de que ele me imporia isso.
Abri a boca para falar, mas fui interrompida por uma voz desconhecida:
-Tenente Tiago, é só para prender os rebeldes e não para se aproveitar das moças que fazem parte do grupo. –disse com certo tom de riso na voz.
Viramo-nos assustados em direção a voz. Ficamos totalmente expostos, totalmente vulneráveis a um ataque. Percebendo isso, meu marido colocou-se na minha frente protetoramente.
-Espere aí! –disse o outro desconfiado. –Rodrigo, Daniel, Fernando! –gritou para algumas sombras que espreitavam o início do beco. –Essa não é a sua esposa?
-Sim, é a minha Raphaele. –respondeu, colocando os braços para trás, tentando me proteger ainda mais. –Ela estava indo visitar a irmã e acabou no meio da confusão quando saía de casa.
Os homens riram sombriamente, quase como se me tivessem visto liderando o movimento protestante.
-Nós vimos, tenente. Ela veste as cores dos rebeldes, até o símbolo está discretamente estampado em seu vestido. É melhor entrega-la, tenente, ou também sofrerá as consequências.
-Só por cima do meu cadáver. –meu Tiago respondeu, me empurrando para trás.
-Com todo o prazer. –o outro respondeu, erguendo uma arma e disparando rapidamente, vários tiros em nossa direção.
Não pensei direito, apenas puxei meu marido para o chão, mas já era tarde demais, ele havia sido atingindo no peito e no pescoço, estava perdendo muito sangue, estava caindo e eu não conseguia segurá-lo. Segundos depois, senti
uma dor insuportável nas costas, nos braços e na coluna, também havia sido atingida. Senti meu mundo girar e depois começar a escurecer aos poucos, era a morte chegando.
-Eu te amo. –falei, desejando que essas fossem as últimas palavras que meu Tiago ouvisse de minha boca.
E a escuridão se abateu sobre mim.

Luna Mia by Camy Caroline

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O cantar das cigarras preenchia na floresta e chegava à barraca de Daniel como uma bela canção de ninar. O cansaço do homem era tanto... Ele passara o dia inteiro em caminhada pela floresta, só para chegar a aquele belo lago, onde seus pais diziam ter se conhecido. Uma coisa estranha, contando que aquele era um lugar extremamente isolado, mas ele preferia não pensar nisso. Portanto, descansou a cabeça no travesseiro improvisado, cobriu-se melhor com sua fina manta e tentou entregar-se ao sono. Poucos minutos depois, ele se deixou abraçar pelo mundo dos sonhos, mal sabendo o que acontecia ao redor de sua barraca.
Fora da barraca de Daniel, enquanto o mesmo dormia, a floresta ganhava vida, acordava para mais uma noite encantada.
As arvores balançavam levemente com o vento sereno da noite, os animais acordados, eram silenciosos ao se moverem.
A beira do lago, uma bela moça de pele morena e cabelos negros, cantava exaltando a lua, enquanto tirava seus pequenos e improvisados tecidos para a roupa, antes de banhar-se nas águas límpidas do lago, iluminada apenas pela brilhante e singela lua.
Enquanto se banhava, a moça cantava sua felicidade ao luar, cantando toda a sua beleza à meia noite daquele dia, seu aniversário de 21 anos.
Regia a lenda de seu povo que, se uma moça se mantivesse pura até seu 21º aniversário, ela deveria se banhar no lago onde a lua se banhava toda noite e, seu grande amor apareceria, tornando o momento em algo inesquecível.
A bela índia banhava-se, apreciando a sensação da água gelada conta sua pele quente.
Daniel foi acordado pela canção da bela moça. O som de sua doce voz, o encantava e era um bálsamo para sua alma, exausta pelos longos dias de trabalho.
O rapaz levantou-se, e saiu da barraca, em busca da bela voz que o encantava. E seus olhos encheram-se de brilho e beleza, no momento em que olhou para o lago e viu a índia banhando-se e cantando.
Caminhou lentamente até o lago. Um braço estendido à frente, boca entreaberta –em forma de espanto, para tão linda voz –, os pés descalços acariciando a grama. Seu corpo ansiava por sentir a água que a índia se banhava, assim como ansiava em sentir o corpo dela contra o seu.
Não eram os instintos de homem falando por Daniel, mas sim seus instintos de ser existente. Era algo mil vezes mais forte que o corpo, era a alma. A alma do advogado, de alguma forma, conhecia aquela mulher e a reclamava para si.
E inconscientemente, tirou a roupa, antes de entrar no lago, assustando a índia e fazendo-a parar de cantar.
-Quem é você? –perguntou a índia, assustando-se com o desconhecido homem que interrompera seu banho.
Daniel sorriu, perdido na profundidade dos olhos da índia, olhos brilhantes e misteriosos, assim como a lua cheia que embelezava o céu da noite.
-Sou quem você esperava. –disse o rapaz, em um ímpeto. Ele não sabia o motivo de ter dito aquilo, assim como não sabia de onde vinha o reconhecimento de tudo que o cercava no momento, mas ele não se importava. Tudo o que importava para ele, era o que o homem italiano dentro dele ganhava vida e seu peito se enchia de um sentimento puro, conforme ele ia se aproximando da índia.
A índia sorriu lindamente ao ouvir as palavras do desconhecido a sua frente. Ela olhou em seus olhos castanhos, reconhecendo ali, o homem que sempre esperou.
-Sou Luna. –disse desajeitada, aproximando-se ainda mais do rapaz.
-Luna mia, i tuoi occhi illuminano la mia notte, la mia vita* ... –as palavras que seu pai lhe ensinara ainda criança, saíram com naturalidade dos lábios de Daniel. Aquela frase, só deveria ser dita quando ele encontrasse um grande amor. Ele não sabia como, mas sentia que Luna era o seu amor.
-Per sempre. –Luna disse, antes de se aproximar ainda mais e abraçar o homem que ela tanto esperou.
1 ano depois...
O mesmo lago, a mesma floresta, exatamente o mesmo dia e hora e... nada!
Depois de conhecer Luna, eles amaram-se a luz do misterioso luar, consagrando seu amor de uma forma carnal. E depois, adormeceram na barraca de Daniel, prometendo um ao outro, nunca mais se deixarem, mas não foi o que aconteceu.
Ao acordar, Daniel viu-se sozinho, apenas com a lembrança da bela noite que passara com a moça.
Desde então, a cada lua cheia, ele ia ao lago, na esperança de encontrar seu amor... Encontrando apenas a silenciosa floresta.
Mas ele nunca deixava de ter esperanças e voltava na próxima lua cheia. Só que essas esperanças não durariam eternamente. A barraca que um dia fora aconchegante, agora inspirava solidão a Daniel.
Um choro cortou o silêncio do local, enchendo o coração do rapaz de esperanças. Ele saiu, ansioso por ver sua amada Luna e consolá-la, pegá-la em seus braços e acabar com oque lhe afligia, mas o que ele encontrou, foi algo completamente diferente do que esperava.
Uma criança. Uma frágil e bela criança, estava no chão terroso, embolada em meio a panos brancos e puídos, no caminho entre o lago e a barraca do homem apaixonado.
-Quem te deixou aqui? –Daniel perguntou para criança, como se ela realmente fosse responder.
O homem levou-a para sua barraca e a despiu dos panos sujos, com medo de que a criança, uma menina, pegasse alguma doença em meio a tanta sujeira.
Em meio aos panos, uma carta. A carta estava escrita à mão, em caligrafia cuidadosa, destina a... Destinada a ele!
Daniel pegou a menina nos braços e a embalou, antes de abrir a carta. Depois que a menina adormeceu, depositou-a em seu travesseiro improvisado e abriu a carta, a aproximou da face, com medo do que estava escrito.
“Querido Daniel, sinto por ter te deixado após nossa noite de amor. Sinto mesmo, mas meu povo clamava por mim...
Deixe-me explicar meu amor. Apenas abra a mente e, deixe que a magia dos índios preencha seu ser.
Naquela noite, depois que você adormeceu, um de meus irmãos apareceu no lago, desesperado. Ele estava a minha procura.
Acontece que minha tribo estava sendo atacada por uma tribo inimiga, e eu, como filha do Cacique, corria perigo, precisava fugir... E fui.
Voltei aqui na manhã seguinte a sua procura, mas nada encontrei além das marcas de seus passos, que iam em direção à cidade.
Eu voltava aqui toda manhã após a primeira lua cheia, mas nada encontrava... Na segunda lua cheia após nossa noite, eu tive uma bela notícia: eu estava grávida! Sim, grávida. Desta bela menina que deve estar contigo neste momento. Ela ainda não tem nome, pois eu queria que você, meu amor, tivesse o prazer de nomeá-la.
Peço desculpas por não estar aí com ela, mas ainda tinha algumas coisas da tribo para acertar antes de ir contigo, para onde quer que você vá. Foi por este motivo que deixei nossa filha com você, para que você soubesse que eu estou a caminho... Amanhã, assim que o sol se pôr, estarei aí contigo, no lago onde nosso amor foi consumado.
Para sempre sua, Luna”
O peito de Daniel se encheu de alegria no momento em que ele terminou de ler a carta. Uma filha? Ele não poderia imaginar tamanha felicidade!
Revirou a mochila apressado, em busca de uma roupa limpa para cobrir a menina, que dormia serena em seu travesseiro improvisado.
Serena...
Aquele nome ecoou dentro da cabeça do homem, enquanto ele pensava que aquele era um ótimo nome para dar para sua filha.
Assim que embalou a menina em suas roupas, ele pegou alguns mantimentos básicos, uma lanterna e o celular e saiu em disparada pela floresta escura, em direção à cidade.
Ele ansiava por chegar em sua casa e mostrar sua pequena filha aos pais, registrá-la e vesti-la decentemente, antes de voltar à floresta e buscar Luna, para levar para casa e construir uma vida feliz.
-Minha Serena, minha Luna... –Daniel disse, olhando para a lua e agradecendo internamente pelo dia em que ele tivera um rompante e saíra em busca do local onde seus pais haviam se conhecido, também consagrados pelo esplendor da lua cheia.
*Frase em italiano. Em uma tradução livre fica: Luna (lua) minha, teus olhos iluminam minha noite, minha vida...

Lembranças de Um Amor by Camy Caroline

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Olhar pela janela pode ser um exercício doloroso, ainda mais para quem espera. Era com esse pensamento que Silvio observava os jardins do asilo em que vivia, da pequena janela de seu quarto. Estava a espera do filho, mesmo este dizendo que talvez não pudesse visita-lo esta semana, devido ao duro trabalho que tinha como cientista.

Uma grande borboleta azul e preta pousou na moldura de sua janela. Tudo, menos a borboleta, saiu de foco, levando-o através da memória de longa data, à mais linda de suas lembranças.

“Mais um dia de aula, mais um dia de tédio e mais um dia de medo.

Era o gênio da turma, o nerd desprezado e humilhado o tempo todo pelos populares. A escola era seu pior pesadelo e os valentões seu mártir. Não bastava ser desprezado por ser o aluno de intercâmbio, o intruso, o estrangeiro, tinha de ser super gênio, o aluno que mesmo vindo de um país no qual a educação era péssima, superava em inteligência os perfeitos alunos estadunidenses.

Como sempre, lia em meu lugar aguardando o inicio da aula. Com cara no livro ninguém ousava me incomodar, pois sabiam a fera que eu virava quando interrompiam minhas leituras, meu momento sagrado.

-Sentem-se, por favor e fiquem em silencio, tenho alguns recados a dar. –pediu o professor, entrando na sala e colocando ordem na bagunça. Colocou os pertences em cima da mesa, antes de se dirigir à turma. –Mrs. Rabin, nossa professora de artes, pediu para avisar que as inscrições para o show de talento estão abertas, só ir até a sala dela e preencher o formulário. Quanto ao dia das audições, ela disse que avisará no ato da inscrição. E quero que deem as boas-vindas a nossa nova aluna. –disse a última parte esticando o braço para a porta, enquanto a mais bela mulher adentrava a sala.

Sim, mulher. Apesar de estar apenas no ensino médio, não merecia se chamada de garota. A postura firme, cabeça erguida e olhar fixo no professor, não demonstrando medo ou vergonha alguma, ignorou os assovios indiscretos dos garotos da turma e o muxoxo de inveja das garotas, demonstrou maturidade ao caminhar até o professor sem se deixar distrair por coisa alguma.

O professor colocou as mãos em seus ombros e a virou de frente para turma, um incentivo para que se apresentasse.

-Olá. Meu nome é Eileen Karamakov, tenho 15 anos e venho de Downey. –falou encarando todos com ar superior.

Um burburinho de surpresa surgiu. 15 anos? Essa menina devia um gênio! Pela idade, ela deveria estar na nona série ou no máximo no primeiro ano!

-Isso mesmo, pessoal! Srt.ª Karamakov pulou algumas séries e ganhou vários prêmios com seus projetos nas feiras de ciências de Downey. –disse o professor, com aquele tom de voz que põe fim a tudo. –Tem um lugar vago ao lado do Sr. Makoski, tenho certeza que ele ficará feliz em dividir o livro que usaremos hoje.

Ela apenas acenou para o professor e andou altiva até a carteira ao lado da minha, ignorando todos por que passava. Não dirigiu uma palavra a mim, apenas colocou seu material sobre a carteira e a arrastou para o lado da minha e ficou me encarando com aqueles olhos azuis glaciais. Completamente assustado, empurrei o livro da aula para o meio das mesas e o abri na última página lida.

-Cartas na Rua, de Charles Bukowski? Vocês realmente leem essas coisas aqui? –ela perguntou surpresa, prendendo os longos cabelos negros. –Pensei que não tivessem bom gosto. Bem, parece que me enganei. –e essas foram suas últimas palavras durante aquela aula.

O resto do dia se passou estranho. Tudo estava normal em verdade, mas algo parecia ter mudado. Todos comentavam sobre a garota nova. Sobre como era bonita, metida e extremamente inteligente, porém sem ser nerd. Todos pareciam amá-la e odiá-la ao mesmo tempo, era estranho.

A garota, por sua vez, parecia fazer tudo diferente do que pensavam. Não se inscreveu para o grupo de líderes de torcida, dança ou teatro, mas sim para o de xadrez e o de leitura, desprezou os populares que excepcionalmente abriram um espaço para ela em seu grupo e foi passar um tempo com um grupo de gamers e alguns outros nerds da escola. Meus pensamentos ficaram focados nisso até o final de última aula daquele dia.

-Hey, Makoski! –uma voz estranhamente familiar me chamou após o bater do último sinal do dia. Virei-me surpreso, ninguém falava comigo naquela escola.

Travei no momento em que percebi que era ela. Como lembrava meu sobrenome incomum? O que ela poderia querer comigo?

-É Makoski seu sobrenome, não? –perguntou parando sorridente em minha frente. Assenti, completamente sem palavras. –Qual seu primeiro nome?

-Silvio. –respondi baixinho.

Ela riu alegremente e fez sinal para que eu a seguisse. Inacreditavelmente, ela foi exatamente na direção em que eu ia. Sem ter muito que fazer, dei de ombros para mim mesmo e a segui.

Andamos algum tempo em silencio e eu pude reparar que seu andar já não estava firme e decido, mas leve, totalmente descontraído e feliz. Seus cabelos negros balançavam soltos em suas costas, sendo levantado apenas por uma brisa ou outra que passava por nós. Sorria para tudo e para todos, o mau humor e superioridade se foram e isso fez seus olhos azuis brilharem ainda mais.

-Desculpe não ter falado com você na aula. –ela disse após algum tempo.

-Hã?

Eileen riu.

-Não precisa ser tímido comigo! –eu não disse nada, mas pude me sentir corando e ela riu mais um pouco. –Sério, desculpe por ter agido daquele jeito. É só que... Já passei por muitos lugares e as pessoas geralmente costumam me julgar pela aparência. Querem que me junte às líderes de torcida, patricinhas fúteis e sem cérebro ou querem que namore um jogador de futebol e se esquecem de quem realmente sou. Digo, ser popular é legal, mas geralmente os populares odeiam ciências e odeiam estudar, tudo o que amo, sabe? Então de início prefiro me mostrar antipática com todos e aos poucos, ao longo do dia letivo, vou me soltando e me enturmando com aqueles que realmente valem a pena me aproximar, assim como você.

Um sorriso espalhou por minha face. Que garota incrível! Usava de psicologia reversa para poder se mostrar realmente.

-Sou considerado nerd, por isso sou desprezado. Aliás, todos que são considerados são desprezados, porém sou mais ainda, pois sou estrangeiro, um indivíduo de outro país que foi se meter na vida dos perfeitos deste país, além de não ser nem um pouco atraente. –ri secamente e ela me olhou zombeteira. –Te admiro por ignorar os populares, qualquer um que conheço sairia correndo para os braços deles, até trocariam de identidade, se possível.

Ela riu mais uma vez e parou em frente a casa que eu estava hospedado durante este intercâmbio.

-Você é lindo, Silvio, não deveria ser minimizar tanto. É inteligente e legal. Li seu blog de intercâmbio, o vi conversando com os donos da casa que mora, é uma pessoa que realmente tenho vontade de conhecer.

Fiquei estarrecido. Como ela poderia saber que eu tinha um blog? Mas o que mais intrigava era saber como ela havia ouvido alguma conversa entre eu e os donos da casa que morava.

-Você...? –comecei sem saber o que falar.

Ela apontou para a casa ao lado, a casa dos vizinhos novos. Foi o suficiente para eu entender.

-Vou precisar de ajuda para pegar o conteúdo perdido. Pode me encontrar às cinco na minha casa? –perguntou com um sorriso sapeca no rosto.

-Claro! –respondi feliz. Finalmente estava interagindo com alguém neste país desconhecido. O melhor de tudo era que esse alguém era uma pessoa diferente e aparentemente extremamente inteligente também.

Não pude prever o que veio a seguir. Ela sorriu mais ainda e veio para cima de mim, dando-me um beijo, um beijo de verdade, na boca!

-Até mais tarde, Silvio! –e foi-se saltitando para a casa ao lado, deixando-me ali na calçada, com um sorriso no rosto e grande expectativa para os estudos da tarde.”

Uma mão quente repousava sobre o ombro do idoso, uma mão conhecida por ele e também muito aguardada. Colocou a mão sobre aquela, demonstrando que sentia a presença do outro.

-O senhor estava cochilando. –disse o filho virando a cadeira de rodas do pai, de frente para ele. –Estava sorrindo bastante, posso saber o motivo?

Pegou a mão do filho e a apertou entre suas, encarando seus olhos azuis, tão iguais aos da mãe.

-Sonhando com o dia que conheci sua mãe. –conseguiu responder em meio as lágrimas que vieram. –Era uma jovem surpreendente.

“E tão parecida com você”. Quis dizer ao encarar o filho desde os cabelos negros, até as mãos longas de artista, porém calejadas pelo trabalho com a ciência. Até na personalidade os dois eram parecidos.

-Tenho certeza que era. –Ademir disse apertando a mão do pai, antes de puxá-lo para um abraço, a fim de confortar o velho pai.

-Só espero que ela tenha me perdoado por ter te tratado mal por tantos anos. –Silvio disse conseguindo conter as lágrimas.

Ademir soltou o abraço, encarou o velho pai e em seguida a borboleta azul, que saíra da moldura da janela e agora estava pousada sobre o braço do velho.

-Tenho certeza que sim. –concluiu o filho, olhando para a borboleta azul, o inseto preferido de sua mãe.

19 de março de 2013

Radioatividade by Camy Caroline

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Prefácio

Brasil - São Paulo/SP – 00:00h do dia 6 de Abril

Sentia os longos cabelos ruivos grudarem-se a sua nuca e o suor escorrer pelas costas apesar do local ser ventilado. O ambiente era por si só opressivo, uma sala, repleta de monitores, com iluminação efêmera, dada quase exclusivamente pela luz que saiam das telas que estavam a sua frente, cada uma, com uma imagem diferente.

Ele não deixava passar um só detalhe do que se passava nos monitores a sua frente. Ele não poderia deixar passar e estava alucinado em busca da resposta que lhe cobravam. Silvio Makoski, seu chefe, estava prestes a chegar.

Aquele homem era tão mais influente no mundo, quanto o próprio presidente dos Estados Unidos e, justamente pelo o que ele estava exigindo de Rafael ali, o pobre empregado tinha certeza que ele passaria por cima de qualquer um que não atendesse seus interesses. E isto não poderia ser, exatamente, de uma forma politicamente correta.

-Onde está o garoto? –perguntou Silvio rudemente adentrando o recinto bem vestido com seu terno perto Armani, sapatos italianos bem lustrados, uma postura rígida e o rosto parcialmente coberto por um chapéu Fedora, da mesma cor de seu terno.

Rafael tremeu ao ouvir a voz do chefe retumbar pelo recinto ao falar do próprio filho como se fosse um objeto. A falta de sentimentos aparentes só tornava aquele homem ali ainda mais assustador. O homem não parecia ser humano e a frieza com que tratava as coisas só o tornava menos humano ainda.

_ T-temoq-eu ele tenha descoberto sobre a câmera acoplada a seu anel, senhor. – Rafael disse, com voz tensa, se dirigindo ao homem como se ele fosse mais seu senhor do que só seu patrão. Talvez, assim fosse. De qualquer forma, não olhou em seus olhos e se encolheu, esperando uma explosão de fúria diante de sua ineficiência…

Mas o contrariando, Silvio apenas sorriu sinistramente e encarou o maior monitor observando um mínimo movimento próximo a lata de lixo do beco mostrado pelo maior monitor da direita.

-Mais atenção Rafael! Ele ainda está ali.  –exigiu apontando firmemente para uma sombra que por vezes se movia minimamente. –Ele desconfia de algo?

-Nã...não senhor, ele acha que está sendo vigiado por causa das drogas. –Rafael se calou por alguns segundos escolhendo as próximas palavras a dedo para que fossem bem interpretadas pelo chefe. –Ele nem imagina o verdadeiro motivo.

Mas a verdade era que o garoto desconfiava de que algo estivesse prestes a acontecer.
As drogas não passavam de uma mera desculpa que Silvio inventara para os funcionários, para justificar o que estava prestes a fazer. Com isso, todos achavam que o garoto era um rebelde sem causa e que merecia uma lição. Só não concordavam com a lição que o pai havia escolhido, mas quem iria questionar o tão intimidador e poderoso chefe?

-Bom, muito bem. –Silvio disse enquanto assentia para si. –Qualquer movimento do garoto, me avise. –e saiu dali sem mais delongas.

Rafael encarou confuso a porta que seu senhor havia acabado de fechar. Ele não entendia o porquê de Sílvio fazer isso com o filho, mas de uma coisa Rafael tinha certeza, nenhuma das intenções de seu chefe era boa.

Ao sair da sala de monitores, Silvio sacou o celular do paletó e rapidamente discou os números já decorados por sua mente e consequentemente por seus dedos.

-Hans na escuta. –o segurança atendeu após o segundo toque.

-Quero relatórios. –exigiu Silvio, sua voz era dura como pedra e fria como gelo.

-O garoto está no beco ao lado de uma boate ilegal, é provável que a polícia chegue logo. –Hans respondeu com cautela, ele fazia de tudo para não decepcionar o chefe.

-Então se prepare para leva-lo ao local combinado, pois será hoje. –Silvio ordenou feliz, ele não via a hora em que seu filho se transformaria em um verdadeiro cientista chegasse.

-Tem certeza senhor? –pela primeira vez na vida Hans deixou o medo transparecer em sua voz, ele achava aquilo que Silvio faria com o filho era extremamente cruel.

-Sim Hans, eu tenho certeza. –disse Silvio impaciente. Ele odiava que o questionassem. –Agora, faça o que tem que fazer. –e desligou na cara do “segurança” de seu filho.

Silvio seguiu andando até sua limusine, convicto de que tudo iria mudar a partir desta noite.

Capítulo 1

Connectticutt – 2:00 am (EUA)

8 meses depois...

O vento frio batia em seu rosto como navalhas cortando sua pele, sua respiração pareciam baforadas de gelo seco, latas eram arrastadas pelo vento forte e seco, o local era sombrio.

Para Ademir, aquele local lhe trazia lembranças, lembranças de morte. Ele achava difícil lembrar aquele fatídico dia que mudara completamente sua vida, seu ser. Era um dia em branco para ele, a explosão havia de algum modo, bloqueado sua memória. Por mais que forçasse sua mente, as lembranças que chegavam a ele não passavam se flashs confusos, fatos sem uma sequencia certa. Mas ali, encostado aquele prédio, simplesmente esperando, ele via claramente as consequências do acontecido, como a sua inteligência avançada, seu ínfimo conhecimento nas áreas das ciências e a estranha desenvoltura que seu corpo mostrava para qualquer tipo de atividade física. Agora ele se sentia mais máquina pensante do que humano, pois tinha a mente rápida e avançada como a memória de um computador e a força de qualquer máquina se carga, era capaz de suportar grandes pesos, sem sentir dor alguma, assim como tinha movimentos perfeitos em qualquer esporte que ousasse praticar.

Olhou o relógio mais uma vez na esperança de não ter se adiantado, mas os ponteiros do relógio o desmentiam. Então, com a esperança de que o tempo passasse mais rápido, 

Ademir começou a andar pelo beco fétido e imundo a procura de algo. Talvez tivesse alguma pista de o que o esperava ali, mas ele nada encontrou além de um mendigo encolhido dentro de uma grande caixa de papelão.

- Chegou cedo. – a voz rouca e seca ecoou pelo beco fazendo com que Ademir virasse para ver o portador dela.

- Rayan. – ele disse para o homem de terno a sua frente. Olhou o relógio mais uma vez. –

Também se adiantou, ainda é 00:10h, sendo o combinado 00:30h. –sua voz destilava sarcasmo. Uma defesa natural, levando-se em conta que o homem o pegara de surpresa. 

- Ademir – disse o outro no mesmo tom cordial. Ignorou o comentário sarcástico do garoto. 

– Vejo que está muito bem.

Ademir reprimiu o impulso de gritar quando aquelas cinco palavras foram proferidas. Porque ele não estava nada bem e aquele que proferiu as palavras sabia muito bem disso.

- Não tão bem quanto aparento. – disse após algum tempo de um silêncio que ele usou para reprimir sua raiva. – Afinal, eu te procurei, não? – desafiou se aproximando da entrada do beco.

- Você veio atrás de mim procurando respostas e não de uma cura. - Rayan cerrou os punhos demonstrando que gostava da situação tanto quanto Ademir.

A curta respiração dos dois era tudo o que se ouvia naquele espaço por longos minutos. O silencio se devia ao fato de que eles precisavam escolher suas palavras minuciosamente, pois qualquer frase mal formada poderia leva-los a uma briga letal.

- E o que você tem a me dizer? – Ademir perguntou, por fim.

- Me siga. – disse Rayan, saindo do beco e movendo-se rapidamente pelas ruas desertas da cidade. Ele nem ao menos se deu ao trabalho de verificar se Ademir o seguia.

O garoto o seguia em silêncio enquanto apressava seus passos, que eram abafados pela neve, para conseguir acompanhar Rayan.

Os dois pararam apenas quando chegaram a uma construção antiga, porém vistosa com suas janelas de madeira ornamentadas e a porta entalhada, as sacadas pintadas de um branco impecável, os entalhes na parede que parecia ser feita de gesso, os tons pastéis da fachada e o ar convidativo que ela passava. Com olhos astutos, rápidos, curiosos e apreensivos, Ademir avaliou as estruturas, definindo ser algo aproximadamente do século XVI.

- Entre. – Rayan convidou abrindo a ornamentada porta, cuidadosamente.

Ademir nada disse ao adentrar a casa. Ele apenas se pôs a observar cada detalhe arquitetônico da antecâmara. Admirando cada canto, cada figura esculpida naquela parede adornada de arte barroca. A arte que segundo seu pai, e segundo as fotos que ele via, sua mãe costumava admirar e restaurar antes de dar a luz ao filho e por um fim a sua vida.

Os olhos do garoto estavam atentos a cada detalhe daquela conflituosa arte que dominava o ambiente. As cores, extremamente escuras e extremamente claras que ocupavam um mesmo quadro, anjos e demônios lutando em um mínimo espaço, a divindade com que representavam a figura humana através dos anjos e santos, as criaturas fantásticas, como bruxas e gigantes, os gritos de guerra e liberdade que algumas obras expressavam, a delicadeza e força que as esculturas de gesso possuíam, a exuberância preenchia o ambiente, e os olhos de Ademir avaliavam cada mínimo detalhe das conflituosas obras de arte que representavam a época barroca. Fez a incrível observação de que o ambiente fora feito para ter as paredes simétricas. Tudo o que havia pintado na parede da direita, estava quase igual a da esquerda.

- Calculando as variantes? – Rayan perguntou, sorrindo enquanto se punha a observar os ângulos e incógnitas presentes ali.

- Um lugar quase simétrico. – Ademir respondeu após dois minutos de cálculos.

O espantou estampou-se na face de Rayan. “Como isto é possível?” – ele pensava. – “Fiz o impossível para que todas as partes, para que todas as figuras repetidas ficassem exatamente iguais.

Ademir riu da expressão de desgosto do homem a sua frente.

- Não se preocupe. – falou, “lendo” os pensamentos do dono da casa. – A diferença das partes que deveriam ser idênticas é mínima, questão de milímetros. Digo, tudo está no tamanho das figuras. Algumas maiores que as outras, apenas isso. – Ademir riu.

- Não imagina como isso me deixa aliviado. – Rayan colocou as mãos nos ombros de Ademir a passou a conduzi-lo pela casa. – Meu avô era um verdadeiro perfeccionista, acredito que herdei isso dele, não admito grandes diferenças em coisas que foram feitas para ser iguais.

- Semelhantes. –disse Ademir, corrigindo-o. Ele se sentia poderoso ao ter tanto conhecimento.

- Como?

- Semelhantes. – repetiu vagarosamente. – Nada é igual neste mundo. Algumas coisas são apenas semelhantes. Pode ser que a semelhança seja grande, mas cada coisa é única. Um bom exemplo é o de irmãos gêmeos, que podem ser idênticos na aparência, porém cada um possui um DNA único.

Rayan se surpreendia com a forma segura com que o garoto deixava escapar de suas observações. O menino, jovem, com olhos que pareciam ter a profundidade do oceano e a sabedoria de toda uma vida, o rosto e a inocência de uma criança e aparência de um homem, com seu sobretudo pesado e o chapéu Fedora, assim como seu pai usava. Aquele garoto perecia saber de mais coisas que as outras pessoas de sua idade. Era mais sensível, mais cuidadoso… Rayan ousaria dizer que ele caminhava para ser um homem extremamente sábio.

Pendurou o casaco e o chapéu nos ganchos atrás da porta da casa e seguiu o anfitrião pela luxuosa casa. 

Mas, apesar das palavras firmes e confiantes, Ademir se sentia oprimido e observado pelas inúmeras obras de arte que lotavam os corredores que passavam. Quadros que pareciam ter movimentos confusos, os olhos das figuras pareciam o seguir, assim como os olhos brancos vazios das esculturas de gessos... As figuras se mexiam sem uma direção exata, o deixando ainda mais desorientado... Ele não conseguia mais saber para onde ia!

- Está tudo bem? – Rayan perguntou assim que viu a cor se esvair da face do garoto.

- Tudo sob controle. – ele respondeu, cerrando os dentes com o intuito de cessar o fluxo de informações matemáticas que seus olhos captavam ali.

Vendo a mentira na face de Ademir, Rayan pegou-o pelo braço e o arrastou pelos corredores da mansão até uma grande, lisa e pesada porta de madeira. Abriu um compartimento na parede, que ninguém havia de reparar se não prestasse muita atenção, pois a mesma estava parcialmente escondida por uma escultura e por ser da mesma cor da parede, se misturava muito bem ao ambiente.

- Secretum tempore explicandis humanae vitae manifestationem cerebro¹. – Rayan sussurrou se aproximando desse compartimento secreto, pouco antes da porta se abrir revelando um verdadeiro paraíso científico.

1 – Frase em latim. Significado: O Segredo da vida será revelado no momento em que desvendarmos o cérebro humano.


Capítulo 2

Ademir adentrou o laboratório, admirado com a variedade de vidros e máquinas que compunham o ambiente. Eram computadores compostos de tecnologia 3D, 4D e 5D, máquinas de um prateado brilhante, que ele só podia imaginar sua função, equipamentos médicos, engenhos gráficos, esboços, cálculos matemáticos, fios de todo tipo, em especial os de cobre, que eram os fios que normalmente regiam equipamentos eletrônicos. Aquilo era um verdadeiro laboratório... Um paraíso científico para ele.

Ademir havia aprendido a gostar de todo tipo de ciência, especialmente as ciências exatas. Matemática, física, química... Tudo o que envolvia números, raciocínio e lógica o atraía, o enfeitiçava e o impulsionava para frente, levando-o a criar coisas inimagináveis, como o protótipo que emitia uma luz, que continha a mesma frequência que a solar, projeto que lhe deu o primeiro lugar na feira de ciências de sua escola, no ano anterior. Queria tornar-se cientista renomado, assim como sua mãe fora um dia, que criava desde aparelhos, até formulas para um novo remédio, apenas para ajudar as pessoas deste vasto planeta em que viviam. Queria, através da matemática, juntamente com a sábia filosofia, auxiliar pessoas que nem mesmo conhecia, dar esperanças a aqueles que já tinham perdido a fé na vida. Queria usar seu alto QI não para benefício próprio, mas para ajudar os que precisavam.

Ele mal viu Rayan sair de suas vistas, pois tudo o que ele conseguia fazer, era admirar o vistoso e moderno ambiente. Esqueceu-se da dor de cabeça que sentia, para a qual o cientista fora buscar um remédio, pois aquele laboratório trouxera seu grande sonho à tona. Parado ali, em meio a um paraíso tecnológico, ele soube que seu sonho seria possível.

-Aqui, garoto. –disse Rayan, estendendo-lhe um comprimido e um copo, pegando Ademir de surpresa. Coisa rara de se acontecer, desde que a explosão acontecera, já que seus sentidos haviam ficado mais aguçados depois da mesma.

Ademir olhou-o assustado. A dúvida assolava sua mente, ele se perguntava se era seguro confiar em Rayan, afinal, ele era o maior inimigo de seu ausente pai, Silvio. Rayan, no entanto, encarava o garoto com uma face bondosa e preocupada. Ademir sentiu-se triste. Ele sempre quis que seu pai fosse assim com ele, mas Silvio era duro e frio, nunca, nenhuma vez em seus 17 anos de vida, Silvio foi no mínimo, carinhoso com o único filho.

-Não é veneno. –Rayan afirmou, depositando o comprimido na mão do garoto. –É apenas um composto criado por mim, para dores de cabeça pelo excesso de informação, como a que você está sentindo. Acredite, isso acontece muito com matemáticos quando trabalham demais, ou quando veem arte com inúmeros elementos, como minha decoração barroca, que você viu antes de adentrar meu laboratório.

Ademir pegou o copo de água e engoliu o comprimido, ainda completamente surpreso. Nunca, ninguém havia dado a mínima atenção ou tivera o mínimo cuidado para com ele depois da explosão. Então, ele nunca esperaria uma atitude tão preocupada, ainda mais vinda de Rayan.

Alguns segundos se passaram em silêncio, enquanto o remédio era reconhecido pelo sistema digestivo de Ademir e, aos poucos, o garoto começou a enxergar o ambiente com mais nitidez, tornando aquele laboratório mais incrível ao que tinha parecido aos olhos dele, de primeiro momento.

-Obrigado. –Ademir agradeceu, após sentir que o comprimido fazia efeito.

Rayan olhou o garoto com admiração, por sua simplicidade, mas o cientista guardou aquilo para si, temendo que o garoto se transformasse em uma pessoa convencida e arrogante, caso ele pronunciasse aquelas palavras.

O cientista nunca imaginou que uma pessoa que fora criada no mesmo ambiente que Silvio, fosse ser tão humilde a ponto de agradecer um comprimido.

-Você é um garoto especial, portanto, merece atenção e cuidados. Além de um professor, é claro. –Rayan disse, tentando manter o seu tom de voz sério e neutro.

-E por quê? –Ademir perguntou. Não confiava em Rayan, ainda mais depois de ter visto inúmeras brigas entre seu pai e ele. Nunca vira o teor de suas conversas, mas os gritos dos dois homens já falava por si só. Então, como fiar em alguém, que claramente desejava o pior para seu pai?

Rayan retesou, não sabendo o que responder. Se ele falasse a verdade, o garoto poderia levar as informações a seu pai. E se mentisse, o garoto com certeza perceberia.

-A mente humana é extremamente confusa. –disse evasivo. Ele ficou de costas para Ademir, enquanto caminhava em direção a uma série de equipamentos, que estavam cobertos por tecidos incrivelmente brancos. –Às vezes agimos para encobrir fantasmas passados, às vezes por puro interesse... Minhas motivações pode ser qualquer uma das duas mencionadas, mas não devemos falar disto agora, temos assuntos mais importantes a tratar.

Mentalmente, o cientista se parabenizava por tão boa resposta, elaborada em tão pouco tempo.

-Sei que seu passado é negro, Rayan. Não precisa elaborar respostas evasivas para não responder minhas perguntas, apenas diga que não lhe é viável responder e eu entenderei. Gosto de respostas diretas. – Ademir retrucou de forma inconsciente e perspicaz. Seu olhar ferino fuzilava as costas do anfitrião, como se aquele mesmo olhar fosse causar alguma dor no homem. Não gostava dele, tampouco de suas atitudes enigmáticas.

Uma longa e genuína gargalhada irrompeu do peito de Rayan. Ele estava nervoso pelo garoto ser tão esperto, porém, estava admirado pelo mesmo motivo. O garoto havia questionado uma resposta sua. Isso era algo que nenhum de seus mais inteligente e experientes alunos, nunca havia feito, ainda mais para uma resposta, que ele, Rayan, havia considerado como algo bem elaborado.

Enquanto ria, Rayan virou-se para a mesa, e depois para o garoto, mostrando as mãos cheias de fios ligados a uma caixa branca com tela preta. Mesmo o aparelho estando desligado, a tela exibia linhas coloridas, que dançariam com o som do coração, assim que o aparelho fosse ligado.

Ademir, assustado com o Frequencimetro, recuou um pouco, pronto para sair em disparada. Sabia que o aparelho, de forma fria e irrefletida, invadiria seu coração e diria quantas vezes batia por minuto, exporia as recentes anomalias de seu corpo e junto com tudo isso, seus maiores medos. Parecia impossível que um pequeno aparelho expusesse seus maiores medos, mas era assim que o garoto se sentira com relação aos exames que havia feito após a explosão, vulnerável, sem conhecimento sobre si mesmo. A respiração do garoto ficou superficial, ele estava com medo do que estava por vir.

Ryan o encarou confuso. Não havia motivos para o garoto temer os equipamentos. Então, como se para assustar Ademir ainda mais, ele avançou três passos e quase encurralou o garoto contra uma esteira.

-Algum problema? –Rayan perguntou, deixando o tom desafiador trespassar a voz.

Ele não pretendia assustar Ademir, mas testá-lo fazia parte de suas aulas.

-O que vai fazer? –Ademir rebateu com outra pergunta, tentando desviar de Rayan, mas falhando miseravelmente em sua tentativa, quando o cientista o segurou pelo braço.

Franzindo o cenho, Rayan largou o aparelho sobre a mesa que estava a seu lado e sentou no chão, como qualquer criança de 6 anos faria. Ele abaixou a cabeça e, franziu o cenho para o desenvolvimento físico de Ademir. Estava claro que quando o garoto ficava nervoso, seu corpo sucumbia, ficava fraco. Quando chegou perto o suficiente, ele sentiu o pulso de seu futuro aluno acelerar de forma alarmante, assim como viu a cor esvair de seu rosto. 
Afastar-se, deixa-lo respirar e se acostumar com o ambiente, era a melhor alternativa para acalmar seu pupilo.

Ademir estranhou a atitude do cientista. O pânico por estar na toca daquele que era inimigo de seu pai começou a tomar-lhe o corpo, começando com um pequeno comichão no pé, que foi subindo pelas terminações nervosas, até chegar ao cérebro, que por sua vez, liberou uma grande dose de adrenalina no sangue, quase fazendo o garoto sair em disparada até a porta.

O garoto teve de reunir grande força de vontade, para não sair correndo daquele labirinto científico. Com passos minuciosamente calculados, se afastou de Rayan, com o intuito de conhecer o laboratório, avaliar o ambiente, para ver o que poderia usar a seu favor, caso o anfitrião tentasse algo contra ele.

Andou pelo laboratório, sentindo-se sufocado com a enorme quantidade de computadores e bancadas com produtos químicos, contidos ali. Era aquele mesmo sufoco que sentiu ao ver o excesso de pinturas barrocas, no caminho para o laboratório, mas a grande diferença era que aqueles objetos o atraiam de forma arrebatadora. Teve de reunir muita força para não se deixar levar pela curiosidade e explorar o laboratório de forma descuidada, que o colocasse em perigo, dentro do covil do inimigo.

Passando em frente a uma máquina de tomografia holográfica, Ademir teve a estranha sensação de déjà vu e instintivamente, tocou a máquina, sendo sugado para um mundo turvo e sombrio.

“Ademir reconhecia o local, aquela era a sala se exames em que ele havia feito sua primeira tomografia após a explosão.

Mas, não era só o local que Ademir reconhecia, ele também reconhecia o garoto que estava deitado na máquina. Os olhos azuis encarando o teto, a pele branca, porém muito arroxeada com machucados, as mãos calejadas, os cabelos negros, grossos e indomáveis, a barba rala, a camiseta branca de mangas longas e o jeans surrado. E o garoto era... O garoto era ele!

Temeroso, Ademir aproximou-se da máquina, somente para ver seu outro eu agoniando, enquanto o exame ocorria.

Ele podia sentir a dor que o outro ele, o que fazia o exame, sentia, mas mesmo assim, resistiu a sensação de queimação que o contraste radiológico, aquele estranho líquido que punham na veia das pessoas quando elas vão fazer tomografias em que querem destacar as veias, em meio a massa cinzenta, lhe causava, e andou até a sala em que os médicos operavam a máquina.

Ele entrou naquela sala como intuito de ver o outro lado daquele exame que ele fizera no passado.

Diferentemente das outras vezes, o cheiro de éter impregnado na sala não lhe causou dor de cabeça, mas sim, o ajudou a pensar com clareza e perceber os detalhes do seu exame, que se passava na tela do monitor, que mostrava as imagens de seu cérebro.

Ele estranhou as mãos trêmulas, as respirações superficiais e atitudes temerosas dos médicos. Era como se aqueles médicos, aparentemente experiente, estivessem vendo algo pela primeira vez.

-Incrível! –exclamou o médico mais novo, deixando um sorriso iluminar sua face, contrastando com sua pele negra. –Nunca vi tanta atividade cerebral... O que o chefe fez foi um milagre!

Os olhos do médico negro brilhavam em excitação. Ele nunca gostava de coisas diferentes nos exames de seus pacientes, mas aquilo... Aquilo era uma grande evolução para a humanidade.

O outro médico olhou seu parceiro, incrédulo no que ele havia acabado de dizer. Esse médico não desviou os olhos do monitor por muito tempo, mas pelo pouco tempo que o fez, Ademir imaginou ter visto naqueles olhos, o mesmo brilho e preocupação que ele via nos olhos de alguém que ele conhecia. Mas quem?

-Incrível? Tem ideia do quanto isso pode prejudicar o garoto? Nunca vi uma atividade cerebral tão alta... –o médico mais velho falou, apontando para o monitor. -90% de atividade cerebral... Não dou mais dez anos de vida para o garoto. –afirmou, deixando seu cenho se enrugar mais ainda.

Ademir assustou-se ao ver que sua atividade cerebral aumentou e as cores nas veias que estavam contrastadas, se intensificaram, enquanto uma dor insuportável ameaçava rachar seu crânio. Um grito de agonia escapou de sua boca e da boca do garoto deitado na maca.”

-Ademir... Ademir... –Rayan chamava e chacoalhava Ademir levemente.

Ademir abriu os olhos e encontrou um Rayan muito preocupado a sua frente.

-Como fui parar lá? – perguntou Ademir, se referindo à sua recente visão.

A confusão tomou conta de Rayan, mas ele não a demonstrou.

-O que você viu? –devolveu Rayan, optando por “jogar um verde”, fingir que sabia a verdade, apenas para saber o que havia acontecido para Ademir ter feito aquela pergunta.
Curiosidade. Era o que definia o olhar do cientista, mas Rayan tentava vão, não demonstrar isso.

Agora, era a vez de Ademir ficar confuso. Ele tinha quase certeza de que Rayan estivera com ele naquela sala de exames, mas pelo visto, se enganara. Então, sem saber o que fazer, ele contou a Rayan o que havia acontecido.

O cientista ficou estarrecido ao fim da história, pois ele nunca ouvira algo tão incrível e, pela primeira vez em sua vida, ele acreditou nas palavras daquele que havia dito, que Ademir nascera para revolucionar o mundo.

-Inacreditável... –Rayan sussurrou para si mesmo, quando Ademir terminou se relatar sua visão e ter exposto suas dúvidas sobre a cena que ele reviveu. –O hipocampo... Ativado! Um grande avanço para a ciência...

O coração de Ademir acelerou consideravelmente. Se era verdade o que Rayan falava, ele era a mais nova anomalia científica. Se os mais famosos cientistas da atualidade descobrissem esse feito, ele seria tratado como rato de laboratório.

A incredulidade paralisou o cientista por vários minutos. Ele mal podia acreditar que o garoto havia encontrado um modo de ativar o hipocampo, uma das partes mais importante do cérebro ligado a memória, que ainda não fora esclarecida, pelo menos até o presente momento. Agora, ele só precisaria encontrar um modo do garoto falar para ele como fizera aquilo, como se conectara a uma memória que ele estava inconsciente e a vira com tantos detalhes.

Rayan sentou-se em frente a um computador, ligou-o e começou a digitar incansavelmente. Ele parecia fazer um registro, Ademir só não conseguia imaginar um registro do que poderia ser.

-Como? –foi a pergunta que escapou da boca de Ademir, depois de absorver as palavras de Rayan. Ele temia as palavras do cientista. E se... E se aquilo fosse uma sentença de morte? Ou pior, e se fosse mais uma de suas esquisitices ou até mesmo uma parte desconhecida da sua hiperatividade?

Sabia a funcionalidade do hipocampo em organizar memórias e transformá-las coerentes em tempo e espaço, assim como sabia que o modo como essa parte funcionava era desconhecida. Também sabia que qualquer estímulo sensorial ativava o hipocampo, trazendo a pessoa uma lembrança, mas nunca ouvira relato algum de pessoas que tivessem lembrança tão vívida, a ponto poder reviver a memória além de seu ponto de vista, assim como ele fez.

Rayan não ouviu o que Ademir perguntou, pois a partir do momento em que o garoto revelou o que havia acontecido, sua mente se focou no avanço científico e neurológico que aquilo tinha.

-Rayan? –Ademir chamou. Ele estava assustado com a falta de reação do cientista a sua frente.

Foi aí que o cérebro de Ademir voltou a trabalhar rápido e o ambiente começou a ficar opressivo demais, causando-lhe uma asfixia insuportável. Ele gritou agoniando em mais uma enxaqueca insuportável.

Mas, apesar dos gritos que o garoto dava, Rayan nada fazia além de ficar sentado em frente a um dos muitos computadores contidos naquele laboratório, pois sua mente estava focada em seu relatório. Registrar a grande descoberta era mais importante que qualquer outra coisa. Ele ouvia os gritos do gênio que o havia permitido fazer esse tão importante registro, mas pensava que o garoto teria que lidar com a relação cérebro, comportamento e emoção sozinho.

Ademir tencionou os músculos, cerrou os dentes e começou a esmurrar o chão do laboratório, o único lugar livre de equipamentos. Seu cérebro mandou altas ondas de adrenalina para seus músculos, fazendo-o soltar essa substancia de forma violenta.

Essa estranha e repentina adrenalina, nada mais era do que uma mistura de confusos sentimentos sendo descarregada em seu corpo.

A raiva e a dor consumiam o corpo do garoto. Ele se sentia caindo em um abismo profundo e sem fim, dando a impressão de que ele logo chegaria a fundo de um poço sujo e ali definharia, com tamanha que era a sua dor. Seu cérebro mandou altas ondas de adrenalina para seus músculos,

Com o passar dos minutos, a dor de Ademir passou, seus músculos relaxaram, os socos no chão cessaram... Ele estava exausto!

Rayan parou de digitar, olhou profundamente para o garoto que aos poucos se recuperava. 
Novamente, mal podia acreditar como aquele jovem conseguira controlar sua situação tão rápido.

-Muito bem, Ademir. –disse com voz profunda, a voz de um professor. –Você sabe por que teve essa reação ante a seu grande fluxo de sentimentos?

Ainda encarando o chão, o garoto balançou a cabeça negativamente.

-Está familiarizado com as reações da depressão? –Novamente, o cientista recebeu uma negativa. Respirou fundo e buscou na memória as aulas de doenças psicológicas, que tivera na faculdade. –A depressão nada mais é do que a mais perigosa doença psicológica. Ela definha tanto o corpo quanto a mente do indivíduo. Em sua iminente tristeza, a pessoa depressiva deixa de comer ou come demais, sente-se extremamente cansado, muda seus hábitos diários e isso, por si só já muda o metabolismo, pois o mesmo começa a desacelerar gradativamente, causando o cansaço, o excesso de sono e outros sintomas do tipo. E veja só, tudo isso por conta da tristeza, insegurança, dentre outros sentimentos.

O garoto ouvia atento tudo o que Rayan dizia. Absorvia a enorme quantidade de informações com facilidade, prendendo-se a cada palavra da explicação. Continha uma inteligência acima da média e uma incrível facilidade em aprender, mas não era um gênio. Ainda precisava de explicações, de alguém que o guiasse e o ensinasse os mistérios da vida, exatamente como o cientista fazia no momento. Compreendeu assim, com uma analogia simples e torta, como corpo e mente são eximiamente interligados.

Ademir levantou-se e encarou aquele que agora seria seu professor. Ainda não confiava nele, mas o mesmo se mostrara gentil e disposto a fazer algo que ninguém fizera até o momento: ensiná-lo a ciência e uma forma de lidar com as sequelas da explosão. Os olhos do garoto estavam sedentos, sedentos pelo conhecimento que Rayan iria lhe passar. Um conhecimento, que ele só aprenderia se testando e passando por situações como aquela pela qual ele acabara de passar.

-Não sei suas motivações para estar se oferecendo para me ajudar. –disse, encarando profundamente o cientista com o olhar maduro e decidido, talvez um olhar maduro demais para sua idade. O outro ouvia atento, ávido para saber o que o garoto tinha a dizer. –Mas entendo que preciso dessa ajuda para testar meus novos limites e você se ofereceu, ou aceitou me ajudar quando lhe pedi ajuda, tanto faz, a verdadeira questão é: quando começamos as aulas?

Um sorriso leve trespassou pelos lábios de Rayan por breves momentos. Ele novamente pegou os fios do Frequencimetro em suas mãos e os brandiu para o garoto, dizendo:

-Que tal começarmos com um teste físico? Apenas uma corrida na esteira...

 Não teve tempo de terminar a frase, pois Ademir já tirava a camisa e se encaminhava para a esteira de forma cautelosa, porém decidida. E assim ele soube que seu mais novo aluno havia aceitado seu primeiro desafio.